Contato Twitter Twitter

Notícias

Economia criativa é política de Estado, afirma Leandro Valiati

23 out 2012

 

Em conversa com o Criaticidades, o economista Leandro Valiati definiu conceitos e afirmou que a Secretaria de Economia Criativa (SEC), ligada ao Ministério da Cultura, tem feito um bom trabalho de mapeamento e fortalecimento do conceito no país. Entretanto são necessários muitos esforços no sentido de gerar dados para produzir indicadores e estudos para a criação de políticas públicas. “A produção de informação local ainda é muito importante”, comentou Valiati. O especialista é uma das vozes mais relevantes ao tratar do tema economia da cultura e economia criativa no Brasil.

Criaticidades: Qual é a sua definição de economia criativa?
Leandro Valiati: Não é um conceito simples. O conceito da economia criativa está em construção tanto na academia quanto na prática. Isso significa que a pesquisa acadêmica e a ação prática estão procurando um modelo brasileiro, mesmo que seja baseado em experiências de outros países. O recorte que eu costumo utilizar é que economia da cultura significa os impactos econômicos da atividade cultural, seja na esfera econômica, seja na esfera financeira. Isto está associado a geração de renda e emprego. Uma outra ordem de impacto, é do não quantitativo, que nos leva a outros indicadores. Por exemplo, as relações sociais no espaço urbano, a identidade, a diminuição de violência, entre outros.

Já a economia criativa, é um espectro mais amplo. Acredito que três subconceitos que ajudam na definição. O primeiro são as atividades econômicas que geram inovação, que podem ser em diversos níveis, seja industrial, numa visão schumpeteriana (baseada na obra do economista austríaco Joseph Alois Schumpeter), ou mesmo a inovação social.

Num segundo eixo, a economia criativa é também um posicionamento político, de Estado e de Nação, para valorizar elementos ligados a nova economia, num certo arranjo econômico pós-industrial. Muitos países, Inglaterra como destaque, visualizaram que não era estratégico competir com países emergentes, que dispõem de um sistema social, mão de obra e políticas trabalhistas mais brandas. Nessa nova estratégia, o país se coloca como player num novo arranjo produtivo mundial que veio com o advento da tecnologia. Os Estados Unidos, por exemplo, ganham mais com a realização design de um produto produzido na China, como no caso da experiência da Apple. Um terceiro ponto, ainda em discussão, é que acho inadequado falar do setor de economia criativa. Acredito que são atividades somadas que geram esse conceito.

Você acredita que o tema demorou para ser reconhecido e incentivado no Brasil?
Não, porque as instituições no Brasil ainda são jovens, tanto políticas como economicamente. A indústria brasileira, por exemplo, completou o seu ciclo de desenvolvimento na década de 80. Ainda no início da década de 90, nós tentávamos estruturar uma indústria de tecnologia de informação da maneira mais equivocada possível, fechando o mercado. Acredito que não é um debate tardio. Mas dada a diferença de tempo, em relação aos países mais desenvolvidos, o debate tem que ser pragmático e de resultados a curto prazo.

Mesmo num mundo atual, em que a noção de tempo é diferente do que era antigamente, ou seja, a velocidade de transformação se dá de uma maneira mais rápida?
Costumo dizer que desde que inventaram o calendário gregoriano, uma hora é uma hora. Essa evolução da informação e da facilidade com que a informação circula, faz que os processos sejam mais rápidos. As coisas levam menos tempo para acontecer. Indo para um mercado mais tradicional, como os produtos culturais e criativos, são lançados em diferentes países do mundo em um tempo menor.

Como você analisa a gestão – tanto na esfera municipal e estadual, quanto na esfera federal – dos projetos ligados a área criativa no país?
Na esfera federal acho que o trabalho da Secretaria de Economia Criativa (SEC – ligada ao Ministério da Cultura) é bastante consistente. É um trabalho difícil, porque além de propor políticas existe a necessidade da institucionalização da secretaria no governo e no país. Mas acho que é um trabalho sólido, que temos que levar em consideração. Às vezes demora um pouco mais para uma instituição governamental estar afinada com as necessidades do setor. Na história da política pública no mundo, os governos estão sempre um passo atrás da tecnologia. O processo de inovação acontece no mercado e no dia a dia.

Existem indicadores para analisar essa gestão no Brasil? E no mundo?
Isso é uma grande lacuna que temos que preencher. Precisamos ter mecanismos de produção para olhar sobre a bases de dados já existentes – como extrair informação – ou criar novas bases, com dados mais modernos.

No mundo temos exemplos como o Gabinete de Estatísticas da União Européia (Eurostat) ou o Creative Economics Report. No Brasil, temos estudos muitos bons feitos na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), na Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), de São Paulo, e na Fundação de Economia e Estatística (FEE), onde trabalho. São os mais significativos trabalhos de mapeamento do setor. Temos que ter informação sobre as indústrias criativas, entender qual é o nosso ambiente de inovação e negócio, para tomar decisões de políticas públicas e privadas. Para se estruturar como um país fornecedor em indústrias criativas, temos que ter uma produção mais consistente de informação e de indicadores. A produção de informação local é muito importante.

E qual é a diferença entre os estudos que são realizados no país e a pesquisa que você está coordenando na FEE, para o mapeamento da indústria criativa no Rio Grande do Sul?
Essa é uma questão um pouco técnica. Nós usamos dados de saídas fiscais de empresas que participam desses setores de economia criativa. Essa informação monetária em termos de valor adicionado bruto. Ou seja, nós vamos saber quanto essas empresas adicionam ao PIB do Rio Grande do Sul. Outras pesquisas utilizam uma projeção com base na renda do trabalho. Trocando em miúdos, nós temos acesso a informação mais direta e precisa, ao invés de fazer uma projeção. Como na área existe muita informalidade, podem existir erros de cálculos.

E como esses conceitos podem contribuir para o desenvolvimento sustentável de uma cidade ou de um país?
Dado que a gente assume que a economia criativa é mais limpa, gera salários melhores e ocupações associadas a trabalhos mais estimulantes, isso acaba impactando em uma sociedade que respeita diversos valores, que vota melhor, que dirige melhor, etc.

Como articular uma parceria entre setor privado, universidade e a gestão pública? Quais os exemplos de que essa tríade pode dar certo, tanto em nível nacional, como no mundo?
Esses três elementos tem que estar presentes. Um exemplo é o Projeto Europeu Sostenuto, que uniu a Universidade de Valência, na Espanha, o Conselho Europeu de Política Pública e algumas empresas para produzir um modelo de indústrias criativas. Nacionalmente a gente também está caminhando. A sociedade e o governo estão olhado para o lugar certo. Já existem observatórios estaduais e o Criativa Birô, que são os primeiros passos.

Leonardo Brant, em entrevista ao Criaticidades, falou que é muito frágil a ligação entre academia e mercado. Qual é a sua visão?
Concordo. É realmente muito frágil, em especial nas áreas de economia criativa. Na áreas da biologia, da química, das engenharias é muito forte, existem muitos projetos de extensão.

Qual o principal desafio para um empreendedor criativo se tornar empresário?
A dinossáurica carga tributária e burocrática. A única coisa mais difícil do que abrir uma empresa, é fechar uma empresa. Isso é terrível. Temos que flexibilizar e racionalizar este processo.

Acredita que os empreendedores criativos tem na gestão de uma empresa seu grande desafio?
Não é o único problema. Acho que tem outras coisas importantes neste processo, como criar pólos de inovação que conversem entre si. Os novos espaços de coworking permitem esse tipo de relação, que é tão importante quanto conhecer de gestão. E também estar atualizado sobre novos formatos empresariais, que estão sendo colocados no mercado.

Como vê a cena criativa na região sul inserida no cenário nacional? E especificamente no Rio Grande do Sul?
No Rio Grande do Sul, o mais representativo é a produção de software, com capilaridade nacional. Mas a cidade de Porto Alegre poderia aproveitar melhor a relação, por exemplo, com a indústria de design de Buenos Aires.

Qual é o objetivo do curso de pós-graduação em Economia da Cultura? Existem muitos cursos sobre o mercado de cultura no país?
Por ser economia da cultura, é um curso de economia, diferente dos cursos de gestão cultural. Começamos em 2006 e não conheço nenhum que tenha o mesmo perfil. Já os cursos de gestão cultural, gosto do trabalho do Cemec, que é formar pessoas para pensar o mercado. Também acho interessante as iniciativas da FGV.

O que o senhor acha das formações que existem para gestores culturais no Brasil? Existem profissionais capacitados em economia criativa?
Acredito que isso é uma outra lacuna: encontrar mais mecanismos de formação de cultura, saindo do lugar comum, que é trabalhar com leis de incentivo. O agente cultural é mais do que ser um operador de lei de incentivo. É necessário que se tornem independentes destas leis.

O senhor escreveu em artigo no Cultura e Mercado que “na parte instrumental, a Lei Rouanet não tem servido para dinamizar a Economia da Cultura e dar pluralidade ao mercado: gera concentração e não influencia positivamente a estruturação da cadeia produtiva”. Existem outras formas de modelo de financiamento em outros países? Esses modelos seriam interessantes para o Brasil?
Eu mantenho a opinião. Todo o sistema de incentivo foi pensado para garantir a sobrevivência no período Collor. Eu acho que hoje a gente tem que pensar em formas mais modernas. As leis – sejam federais ou estaduais – pecam por gerar concentração e viabilização de projetos que teriam poder de mercado por si só. Com esse sistema de leis, acabamos desincentivando a inovação. Precisamos de novos critérios, talvez os grandes artistas possam reclamar a curto prazo, mas vamos garantir o recursos público para a inovação. Recurso público é escasso, o que se deixou de fazer com este dinheiro é a uma nova estruturação de mercado.

Existem outros modelos: o francês tem uma diferença, pois opera num mercado mais desenvolvido. O modelo americano, opera sem governo. Talvez tenhamos que buscar um equilíbrio entre eles.

_______________________________________________________________________________

Leandro Valiati é economista, mestre em Urbanismo e doutorando em Economia do Desenvolvimento. Professor e fundador do curso de pós-graduação em Economia da Cultura da UFRGS, ele coordena o mapeamento da indústria cultural no Rio Grande do Sul realizado pela Fundação de Economia e Estatística (FEE) do Estado.

 

Leia +